Desde muito cedo me falaram sobre Ele. Ainda na tenra idade eu via um velho de cara fechada sentado num trono sobre as nuvens. E enquanto eu crescia aquela imagem se fortalecia com mais intensidade. Ele era cada vez mais bravo e meritocrático. O certo e o errado estavam sempre diante das minhas decisões. Eu tinha que acertar sempre porque era isso que Ele esperava de mim, afinal, Ele enviou o seu filho para morrer pelos meus pecados.
O tempo foi passando e percebi, não num passe de mágico mas paulatinamente, que esse Deus que eu acreditava não era lá um Deus muito Cristão (entendo o absurdo da frase).
E foi aos poucos enquanto eu lia os evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas, João e outros) que fui me dando conta de que o Cristo em nada se parecia com aquela divindade que me fora apresentado desde sempre.
O Cristo dos evangelhos era bem diferente do "meu Deus" (construído). Ele nascera numa manjedoura, oriundo de uma família simples. Teve uma infância comum com hábitos locais. Ele teve amigos e companheiros para toda uma vida, chegou até a chorar com a morte de um deles, Lázaro.
Sim, Ele, O Cristo, se assumiu como Deus, mas um Deus-Homem. É possível dizer que ele trouxe uma nova proposta de humanidade, uma nova possibilidade de ser gente. Isso mesmo, Ele foi gente da gente, comeu e bebeu com pecadores, falou com gente que não era do "bem", visitou a casa de "bandido", se deixou lavar por prostituta, falou com mulher que não tinha voz e tocou em leprosos. Em alguns momentos agiu como um fora da lei, mesmo atentando para ela.
Ele parecia não se importar muito com as etiquetas estabelecidas por convenções, ao que parece, a sua prioridade era outra - pessoas.
Ofereceram-lhe poder, mas achou melhor ser servo.
Foi tentado a mostrar-se poderoso, mas a humildade foi a sua escolha.
Ele pronunciou o mais belo sermão da história, convidando-nos à fraqueza, à pobreza, à mansidão, ao choro, à paz...
Nos ordenou um mandamento bem estranho: "amarás ao próximo como a ti mesmo".
E levou isso ao absurdo: "amarás o teu inimigo".
Ele ofereceu à humanidade propostas quase "indecentes".
Nos aconselhou a perdoar os imperdoáveis e a servir sem olhar a quem. Nos alertou para o fato de que devemos fazer pelo outro como se estivéssemos fazendo a Ele, O Cristo.
Falou de renuncia, de partilha e de comunidade... na oração nos ensinou que o Pai é nosso e o pão também é nosso, não somente meu.
Ele nos mostrou que a fé é pessoal, comunitária e partilhada ao mesmo tempo.
Esse Cristo me constrangeu... mas foi um bom constrangimento.
Aquele outro Deus morreu enquanto o Cristo nascia dentro de mim.
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